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terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um “Gigante (Quase) Adormecido” Pode Chegar a “Tigre Asiático”

Um “Gigante (Quase) Adormecido” Pode Chegar a “Tigre Asiático”*


Domingos de Gouveia Rodrigues




Entre os desafios a serem enfrentados pelo Brasil no que resta da década de 90, um dos mais importantes é, sem dúvida, o processo de inserção de sua economia na divisão de trabalho internacional em bases vantajosas para o País.

O acirramento da competição internacional por mercados, num processo que acentua a globalização das atividades das grandes companhias multinacionais, é um indicador que não pode ser ignorado pela elite empresarial brasileira. O que se assiste no momento, talvez de uma forma e intensidade nunca vistos, é uma luta pela riqueza e pelos empregos mundiais, num processo amplificado pelo surgimento de novas potências econômicas mundiais, as quais ameaçam alterar o status quo de poder mundial.

Para fazer face ao desafio da internacionalização e da globalização de atividades, as empresas nacionais necessitam de uma estratégia centrada em seis pilares:

1.   Planejamento estratégico
2.   Modernização empresarial e gerencial
3.   Crescimento sustentado
4.   Desenvolvimento tecnológico
5.   Produtividade do trabalho
6.   Competitividade internacional

Na verdade, existe um processo circular e cumulativo envolvendo essas seis variáveis, tanto a nível microeconômico, quanto a nível macroeconômico, o qual determina ultimamente o padrão de competitividade da economia como um todo nos mercados internacionais.

Planejamento estratégico determina as grandes linhas de atuação das empresas no longo prazo, suas metas, objetivos e alianças. Capacidade empresarial e gerencial detona o processo de crescimento econômico e os investimentos em pesquisa e desenvolvimento tecnológico. É nesse contexto de crescimento econômico que a produtividade da mão-de-obra cresce, e existe farta evidência internacional a esse respeito. Maior produtividade aumenta a competitividade dos produtos nacionais nos mercados internacionais, a qual leva ao aumento nas exportações. Uma maior taxa de crescimento das exportações leva a uma maior taxa de crescimento do PIB, a qual significa mais empregos e mais renda a ser repartida por salários e lucros. Chegamos, portanto, a um círculo virtuoso que se autoalimenta, no qual o crescimento das exportações e a internacionalização das empresas têm um papel fundamental.

Vamos agora analisar sucintamente cada uma das seis variáveis. Planejamento estratégico depende fundamentalmente da visão estratégica dos empresários nacionais. Nem eles mesmos negam que ao longo dos últimos vinte anos sua estratégia, se assim a podemos chamar, tem sido voltada para um controle do Estado em seu favor, numa visão eminentemente de curto prazo. Tem inexistido uma visão de longo prazo, na qual a defesa de seus mercados internos e a expansão em mercados internacionais como resultado do aumento da competitividade teriam um papel fundamental.

A relação com o Estado teria de mudar, centrada agora numa relação de parceria, a qual favoreceria a internacionalização das empresas nacionais, os investimentos em P&D, a formação da mão-de-obra e a preservação dos setores estratégicos em mãos do capital nacional, público e privado.

Capacidade empresarial e gerencial tem a ver com a primeira variável, no sentido de desenvolver métodos empresariais e gerenciais modernos. É parte de uma visão estratégica voltada para a eficiência, a produtividade e o aumento da competitividade. Num mundo crescentemente caracterizado pela internacionalização das empresas, pela globalização de alguns mercados e por uma crescente competição mundial, os empresários necessitam desenvolver uma filosofia competitiva, ainda que nos mercados domésticos o grau de concorrência seja menor.

Crescimento sustentado tem a ver com a capacidade das empresas de crescerem de forma equilibrada no longo prazo. Nesse sentido, existe forte correlação entre as políticas de financiamento e investimento das empresas e a taxa de crescimento sustentado. A experiência internacional recente sugere que os grandes grupos empresariais internacionais usam o autofinanciamento como principal fonte de crédito e estabelecem uma taxa de crescimento planejada compatível com uma taxa moderada de risco. A esse respeito, cabe ressaltar que, conforme demonstramos em diversos estudos ao longo dos últimos dez anos, a elite empresarial brasileira também seguiu essa estratégia, a qual provou ser a mais adequada aos seus interesses, numa conjuntura macroeconômica de grande incerteza e risco.

Desenvolvimento tecnológico é determinado fundamentalmente por três variáveis: investimento de longo prazo em P&D, investimentos em capital fixo incorporando novas tecnologias e custo de aprendizado decrescente como resultado do acúmulo de conhecimentos e experiências. O empresariado brasileiro ainda é muito avesso a assumir riscos no desenvolvimento de novas tecnologias. Conforme demonstram pesquisas recentes, a maioria do grande empresariado nacional não considera defasagem tecnológica como um de seus maiores problemas, fato que não é compatível com a produção nacional de tecnologia de ponta. No Brasil, os gastos com P&D como proporção do PIB não ultrapassam 0,5%, enquanto no Japão e na Suécia essa relação já alcança 3,0%, nos Estados Unidos e Alemanha, 2,8% e na França, 2,4%. Até mesmo alguns países de industrialização recente investem mais em P&D do que o Brasil, como é o caso da Coreia do Sul, com 1,9% e Taiwan (província da China), com 1,3%. No momento em que se redefine o papel do Estado, cabe não esquecer o papel fundamental que continua a ter, inclusive dentro da nova estratégia do governo Clinton, na política de desenvolvimento tecnológico em parceria com o setor privado. Esse papel não tem sido negado nem pelos governos mais conservadores dos países desenvolvidos.

Produtividade do trabalho depende da qualidade da formação da mão-de-obra, da eficiência com que novas tecnologias são incorporadas ao processo produtivo e da taxa de crescimento econômico, uma vez que, quando a economia cresce, a produtividade também cresce. Não deixa de ser preocupante constatar que o Brasil investe em educação uma parcela do PIB muito menor do que a maioria das nações mais industrializadas. O investimento em educação, além de permitir a ascensão na escala social por parte dos menos favorecidos, dessa forma contribuindo para a melhoria do perfil de distribuição de renda, também aumenta a qualidade da mão-de-obra e contribui efetivamente para a obtenção de ganhos de produtividade.

Competitividade internacional é, ao mesmo tempo, fruto da eficiência com que as empresas operam as variáveis antes mencionadas, e determinante do crescimento da empresa, na medida em que é peça-chave do círculo virtuoso detonado pelo aumento da produtividade. Competitividade internacional depende de uma política deliberada voltada para a conquista de mercados externos. Nesse sentido, é de fundamental importância entender que o nível de bem-estar de uma nação pode ser ampliado quando ela expande suas exportações, pela criação de renda e de empregos associados com o incremento da demanda externa. É isso que explica o caráter intervencionista das potências mundiais, as quais usam de todos os meios ao seu alcance para exercer um controle direto sobre as variáveis externas de seu interesse, projetando-se muito além de suas fronteiras. É isso o que explica também as tensões que têm ocorrido, por um lado, entre os Estados Unidos, Japão e Europa em questões associadas com tecnologia, comércio internacional e defesa e, por outro lado, as potências mundiais e os países em desenvolvimento, fruto de uma relação eminentemente favorável às primeiras.

Para concluir, julgamos importante ressaltar que o comércio internacional é um jogo estratégico. É, na verdade, um jogo estratégico entre as elites das diversas nações. A experiência histórica sugere que países que se estruturam do ponto de vista militar, financeiro, tecnológico e comercial, para tirar proveito desse comércio, alcançam estágios superiores de desenvolvimento e de bem-estar social vis-à-vis as demais nações. Para tal, é necessário ter uma estratégia. Nessa estratégia, há um lugar primordial para as relações capital-trabalho. Do bom entendimento entre patrões e empregados resulta a estabilidade da produção. Desta, ganhos de produtividade são consequências naturais, levando a um círculo virtuoso, passando pelo aumento da competitividade externa em que salários e lucros costumam, historicamente, tirar grandes proveitos.



* Nota: Este artigo foi publicado originalmente na revista Capital & Trabalho, em novembro de 1993. Os dados atualizados de gastos em P&D são os seguintes: Brasil (1,1%), Japão (3,44%), Suécia (3,75%), Estados Unidos (2,8%), Alemanha (2,5%), França (2,0%), Coreia do Sul (3,21%). Republicamos este artigo neste blog face a sua atualidade.

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