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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

UMA "ENTREVISTA" COM JOHN MAYNARD KEYNES

Uma “Entrevista” Com John Maynard Keynes

Domingos de Gouveia Rodrigues

“Transformar o empresário em especulador é golpear o capitalismo porque isso destrói o mecanismo psicológico que permite a perpetuação de recompensas desiguais(...). O empresário só é tolerável enquanto se pode aceitar que seus ganhos guardam alguma relação com aquilo que, grosseiramente em qualquer sentido, suas atividades trouxeram como contribuição para a sociedade”.

Keynes (1883-1946)




                       John Maynard Keynes (1883-1946)

Quem Foi Keynes


John Maynard Keynes, economista inglês, nasceu a 5 de junho de 1883, em Cambridge, morrendo a 21 de abril de 1946, em Firle, Sussex. Após doutorar-se em matemática, em Cambridge, Keynes serve dois anos na Índia como funcionário do Tesouro e, na volta a Londres, passa a ocupar cargos públicos. Em 1915, Keynes torna-se funcionário do Ministério das Finanças e, em 1919, chefia a delegação britânica à Conferência de Paz [1].

Por não concordar com a política econômica imposta à Alemanha no Tratado de Versalhes [2], Keynes rompe com o governo, em 1919, passando a lecionar economia política na Universidade em que se doutorara. Nesse mesmo ano, escreve artigo de grande repercussão (“As Consequências Econômicas da Paz”), em que aponta os perigos para a Europa decorrentes das duras medidas impostas à Alemanha.

Não obstante tenha tido sua formação calcada na teoria econômica clássica, Keynes passa a desenvolver ideias que vão acentuando suas divergências com aquela teoria, manifestadas nas críticas que passa a fazer ao governo, particularmente em relação à política de deflação. Em 1923, publica “Tratado Sobre Reforma Monetária”; em 1925, publica “Consequências Econômicas de Winston Churchil” e, em 1930, publica “Tratado Sobre Moeda”.

Todavia, foi em 1936 que Keynes publica sua obra mais importante (“Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro”), que veio a exercer papel de importância ímpar na literatura econômica e a servir de guia de orientação para a maioria dos países capitalistas desde a sua publicação.

Após passarem pelos duros anos da “Grande Depressão”, as economias capitalistas buscavam a solução para os problemas do grande desemprego e da baixa produção. Para os economistas ortodoxos, o desemprego se devia à pressão por salários por parte dos trabalhadores. Keynes, em seu trabalho, provou que era exatamente o contrário, na medida em que o achatamento salarial implicava na insuficiência de demanda agregada que levava à queda de preços, à superprodução (não explicada pela teoria clássica) e ao desemprego.

Para Keynes, o estímulo à expansão da demanda agregada (cuja insuficiência causava desemprego) podia ser alcançado com a intervenção do Estado no domínio econômico, através de políticas fiscais que acionassem os investimentos públicos que, a seu ver, gerariam efeitos multiplicadores sobre o restante da economia, aumentando a demanda agregada, estimulando o investimento privado e, assim, levando a economia ao pleno emprego. Nesse sentido, o papel do Estado não seria o de ocupar os espaços do setor privado, mas apenas atuar como um regulador da demanda agregada, estimulando-a em fases depressivas e reduzindo-a em fases de demanda excessiva.

Representante do Reino Unido na Conferência de Bretton Woods em 1944, Keynes apresenta um programa em que defendia o fim dos acordos baseados no ouro, a estabilização internacional da moeda e a criação de um Fundo Monetário Internacional, instituição que veio a ser criada nesse mesmo ano e da qual foi nomeado diretor, em 1946 [3].

Semanas após ter tido forte atrito com o Secretário de Finanças dos Estados Unidos, na primeira reunião do Fundo Monetário Internacional, por discordar de algumas decisões tomadas, Keynes morre vitimado por um enfarte, legando para as gerações futuras um importante trabalho, chamado mesmo de revolucionário, mostrando que o Estado desde que atue de forma correta e no momento oportuno pode ser importante instrumento corretor dos ciclos próprios do sistema capitalista e, dessa forma, não só protegendo-o, mas também impulsionando-o.

Evolução Histórica da Macroeconomia



Até os anos 1930’s os conceitos de microeconomia e macroeconomia não existiam como hoje definidos. Na verdade, não havia distinção entre microeconomia e macroeconomia. O que havia era Teoria Econômica, notadamente o conceito de Economia Política, que envolvia conceitos hoje considerados microeconômicos ou macroeconômicos, com predomínio absoluto dos princípios econômicos neoclássicos, o marxismo representando o único desafio real a esses princípios.

A utilização prática dos princípios liberais marginalistas reinou absoluta até o início da Primeira Guerra Mundial, quando passou a ser substituída por um sistema de planejamento nos países belicistas. Essa mudança teve razões estratégicas e objetivava conhecer as capacidades econômicas e militares dos países beligerantes. Todavia, é com a Grande Depressão nos anos 1930’s, que esses princípios caem por terra, passando-se a utilizar mecanismos de intervenção estatal no domínio econômico (“New Deal”, por exemplo, em 1934, nos Estados Unidos), notadamente a partir da publicação do livro “Teoria Geral“ de Keynes, em 1936. A intervenção estatal passa a ser um dos instrumentos de política econômica nos países capitalistas.

A separação entre a microeconomia e a macroeconomia se dá na década de 1930, principalmente com o desenvolvimento da macroeconomia, a partir da publicação da “Teoria Geral” de Keynes, em 1936. Os conceitos desenvolvidos e/ou aperfeiçoados por Keynes passam a constituir a macroeconomia, numa visão coletiva de mundo, ao passo que o restante da teoria econômica, a base marginalista, passa a constituir a microeconomia, numa visão individualista de mundo. Keynes, em sua obra clássica, faz uma separação entre os conceitos micro e macroeconômicos na seguinte passagem:

“A divisão da Economia em teoria do valor e da distribuição de uma lado e em teoria da moeda do outro parece-me falsa. A dicotomia correta é, no meu modo de ver, entre a teoria da indústria ou da empresa individual e das remunerações e distribuição de cada quantidade de recursos entre diversos usos, de uma parte, e a teoria da produção e do emprego como um todo, de outra.” J. M. Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, Nova Cultural, 1985, p. 203.

A Formação da Macroeconomia

Como vimos anteriormente, a Macroeconomia não foi reconhecido como disciplina econômica antes da década de 1930. Alguns fatores foram decisivos para o desenvolvimento da Macroeconomia:

 

• A recolha e sistematização dos dados agregados forneceu a base científica para as pesquisas macroeconômicas. A recolha de informações agregadas a partir da Primeira Guerra Mundial foi o ponto de partida desse processo, na medida em que muitos países sentiram necessidade de acompanhar o desempenho econômico de países adversários e/ou inimigos no cenário internacional, de modo a poder avaliar os pontos fortes e fracos dos mesmos. Posteriormente, o NBER – National Bureau of Economic Research, uma instituição de pesquisa privada dos Estados Unidos, realizou um trabalho importante e pioneiro de coleta e análise de dados na década de 1920, tendo à frente Simon Kuznets (1901-1985), economista ucraniano naturalizado americano, o qual viria a ser laureado com Prêmio Nobel de Economia em 1971 por suas análises do crescimento econômico empiricamente fundamentadas. Por volta dos anos 1930, os Estados Unidos tinham uma série de dados sobre as contas de renda nacional, que seriam posteriormente usadas para estudar as tendências a nível macroeconômico. Kuznets contribuiu decisivamente para o desenvolvimento das técnicas da contabilidade nacional ao levantar os problemas decorrentes da medição dos grandes agregados econômicos.
• Estudos de Wesley Clair Mitchell (1874-1948), membro destacado da escola institucionalista americana, mostraram que a economia dos EUA estava sujeita a ciclos de negócios em que variáveis tais como estoques, produção e preços tendiam a sofrer mudanças sistemáticas ao longo de um ciclo de negócios típico.
• A Grande Depressão, que começou em 1929, foi caracterizada por enorme declínio da atividade econômica, o qual levou a um aumento sem precedentes da taxa de desemprego. No início da década de 1930, aproximadamente 25 por cento dos trabalhadores norte-americanos não conseguia encontrar trabalho. A Grande Depressão representou, na prática, o questionamento dos princípios econômicos clássicos, em especial da famosa Lei de Say, que pressupunham que as forças naturais do mercado evitariam o desemprego de longo prazo e em larga escala. John Maynard Keynes colocou a Macroeconomia no caminho moderno propondo um novo esquema teórico para explicar a Grande Depressão e sugerindo medidas governamentais específicas para contra-atacar a depressão econômica.

A Macroeconomia, na verdade, foi desenvolvida a partir da base da Microeconomia elaborada pelos economistas marginalistas ou neoclássicos no século XIX. A microeconomia estuda as decisões isoladas de milhões de firmas e consumidores e que acabam por gerar as tendências gerais da economia, isto é, a macroeconomia. Portanto, a base macroeconômica é oriunda da microeconomia, uma vez que estuda, em nível teórico, os processos de decisão das empresas e dos consumidores. Os modelos macroeconômicos assumem que na economia há uma firma ou consumidor médio ou representativo de toda a economia e que, portanto, tem as características da média da economia.

A Macroeconomia estuda o comportamento geral da economia agregando, ou somando, todas as decisões dos consumidores e firmas tentando estabelecer as relações entre as variáveis econômicas estudadas.

A macroeconomia define os princípios teóricos e, a partir da coleta de dados, dá um conteúdo empírico à teoria, coletando e testando a validade de uma relação teórica proposta, para medir uma relação quantitativamente, para explicar o passado de uma economia, ou para chegar a determinadas previsões econômicas quanto ao futuro.

Na macroeconomia há uma forte interação entre a economia positiva e a economia normativa, na medida em que há uma grande preocupação tanto com o estabelecimento de uma estrutura teórica rigorosa, quanto com políticas que levem à melhoria do bem-estar social.

A Contribuição de Keynes

Keynes foi o primeiro economista a explicar, de modo consistente, a Grande Depressão, atribuindo importância fundamental à instabilidade da confiança do investidor privado na explicação desse fenômeno. As principais contribuições de Keynes à Teoria Macroeconômica (ver, por exemplo, Simonsen & Cysne, Macroeconomia, 1995) são:

 

• Organizou os conceitos básicos da contabilidade nacional, que acabariam por levar ao surgimento da moderna Macroeconomia;

• Elaborou, em pormenor, o funcionamento da economia capitalista na ausência do “leiloeiro walrasiano” e percebeu que, na impossibilidade de que todos os mercados estivessem em equilíbrio, a identidade de Walras não era um princípio econômico válido. Portanto, a não-validade da identidade de Walras implicava também na não-validade da Lei de Say, a qual afirmava que a oferta gerava sua própria demanda, pressupondo que o livre mercado evitaria naturalmente o desemprego em larga escala. Para Keynes, a Lei de Say só funcionaria em mercados que operassem em sistema de escambo, ou seja, em uma economia em que não houvesse moeda. Essa questão já havia sido discutida por Malthus (1766-1834);

• Concluiu que há resistência à queda dos salários nominais; que há uma relação importante entre a taxa de juros e a demanda por moeda; e criou a função consumo;

• Construiu, pela primeira vez, modelos de equilíbrio econômico agregado a curto prazo;

• Introduziu o conceito de política fiscal compensatória, em que as recessões resultariam da falta de investimentos privados para absorver as poupanças geradas no auge do ciclo. Para Keynes, o déficit público deveria ser contra-cíclico (para os clássicos deveria ser equilibrado);

• Defendeu a intervenção governamental como instrumento de política econômica para resolver os problemas decorrentes da baixa demanda efetiva resgatando princípios mercantilistas intervencionistas;

• Introduziu o conceito de demanda efetiva dentro de uma perspectiva macroeconômica. O multiplicador keynesiano descreve o aumento da demanda efetiva numa economia capitalista em desaceleração. Keynes enfatizou o papel da demanda agregada nas flutuações macroeconômicas. A criação do termo “demanda efetiva” é atribuída a Thomas Malthus (1766-1834) em sua obra clássica de 1820 (“Princípios de Economia política”).

No livro Teoria Geral do Emprego, Juros e Moeda publicado em 1936, Keynes supõe que a economia de mercado não é capaz de se auto-regular, não garantindo, portanto, níveis baixos de desemprego e altos níveis de produção no longo prazo, estando sujeita a grandes flutuações, que seriam decorrentes de alterações no nível geral de investimentos privados. Para Keynes, ao contrário do que pressupunham os economistas neoclássicos, a Grande Depressão não podia ser eliminada rapidamente pelas forças naturais de mercado, dado que alguns preços básicos da economia, como, por exemplo, os salários, não são flexíveis o bastante para se ajustarem aos choques econômicos. Keynes propôs a expansão dos gastos governamentais e alterações nas políticas monetária e fiscal para resolver os problemas da Grande Depressão. Ele defendeu o uso de políticas de estabilização para regular a economia. De acordo com a teoria clássica o mercado de trabalho se ajustaria naturalmente de modo a garantir o pleno emprego a longo prazo. A Grande Depressão acabaria por demonstrar a falácia da hipótese clássica e, em particular, da famosa Lei de Say.

A Revolução Keynesiana

John Maynard Keynes é o criador da moderna macroeconomia e suas obras romperam com a tradição neoclássica apresentando um programa de ação governamental para a promoção do pleno emprego. Keynes interessou-se pelos problemas da instabilidade econômica a curto prazo e procurou determinar as causas das flutuações econômicas e os níveis de renda e de emprego em economias industriais. Keynes, formado intelectualmente de acordo com os princípios neoclássicos, questionou esses princípios, incluindo suas preocupações de longo prazo, “período no qual todos estaremos mortos”, de acordo com Keynes.

Keynes analisou os problemas dos grandes agregados a curto prazo (renda, emprego, poupança, consumo, investimento) e contestou a crítica marxista ao capitalismo que, para Keynes, poderia ser preservado, em sua parte essencial, se reformas apropriadas fossem implementadas. Keynes criticou a Lei de Say e sua noção de equilíbrio perpétuo entre oferta e demanda: para ele o grande problema no período pós-grande depressão era uma insuficiência de demanda efetiva (consumo mais investimento) que mantinha a economia americana em depressão. Keynes analisou o problema da retenção de moeda (“armadilha da liquidez”) e analisou os grandes agregados da economia e o equilíbrio desses agregados, atribuindo papel ativo à política fiscal – o uso político dos déficits públicos – e dando pouca importância à política monetária.

Keynes, ao contrário de Adam Smith e dos demais economistas clássicos, buscou recuperar o legado mercantilista, ressaltando a importância dos superávits na balança comercial na redução da taxa de juro e no incremento da demanda efetiva. O princípio da demanda efetiva, aperfeiçoado por Keynes, não é novo na teoria econômica. Thomas Malthus (1766-1790) e John Hobson (1858-1940) já haviam elaborado argumento semelhante. Além disso, Joan Robinson (1903-1983), em sua obra ‘Liberdade e Necessidade”, mostra que as principais teses da Teoria Geral já tinham sido antecipadas por Gunnar Myrdal (1898-1987) e Michael Kalecki (1899-1970), com o desconhecimento de Keynes.

De acordo com Keynes, uma economia capitalista pode alcançar seu equilíbrio, mesmo que não haja o pleno emprego dos recursos produtivos. Na concepção keynesiana, uma política econômica que buscasse o pleno emprego deveria:

 

Baixar a taxa de juros;

• Aumentar os gastos públicos;

• Expandir o volume de empréstimos por parte do governo.

Keynes rejeita a Lei de Say, que pressupunha um equilíbrio perpétuo entre oferta e demanda, introduzindo a hipótese de insuficiência de demanda como o problema econômico fundamental nas circunstâncias da Grande Depressão. O conceito de demanda efetiva tem no investimento seu principal determinante. As decisões de gasto dos agentes econômicos, no curto prazo, determinam os volumes de investimento, renda e emprego. Portanto, a demanda efetiva pode ser menor que oferta, provocando redução na produção e no emprego. A moeda também é considerada como reserva de valor, havendo possibilidade de entesouramento por parte dos agentes econômicos, desestimulando a demanda. Assim, Keynes introduz o conceito de preferência pela liquidez e admite demanda por moeda com um fim em si mesmo (motivos de precaução e especulação). Assume, ainda, a possibilidade de haver equilíbrio com desemprego no curto prazo, o que para os clássicos e neoclássicos seria inadmissível.

As principais idéias econômicas de Keynes, em linhas gerais, portanto, são:

 

• O nível de emprego depende da demanda efetiva, ou seja, dos gastos com consumo e investimento;

• Numa economia monetária (em que não há o escambo), a lei de Say não é válida, dado que a renda percebida pode não ser totalmente consumida;

• Numa economia capitalista pode haver vantagens na retenção do dinheiro, desde que ocorra uma preferência pela liquidez em função das expectativas econômicas. Nesse caso, o total das vendas pode superar o total das compras, forçando o acúmulo de estoques e a superprodução, levando a uma queda nas vendas. Havendo entesouramento do dinheiro em decorrência de uma preferência pela liquidez, a demanda efetiva cai;

• O nível de consumo depende da renda, mas é mais estável do que a mesma. Quando a renda aumenta, ocorre um aumento da poupança;

• Os empresários só investirão em seus negócios se a taxa de juros for inferior à perspectiva de lucros, que Keynes chamou de “eficiência marginal do capital”. Para haver investimento, a taxa de juros de mercado tem que ser inferior à eficiência marginal do capital; isto é, à expectativa dos lucros na atividade econômica. Se os juros subirem, a demanda efetiva cai e vice-versa;

• Uma economia capitalista pode encontrar seu nível de equilíbrio (poupança igual a investimento) sem que haja o pleno emprego dos fatores de produção;

• Para haver o pleno emprego é necessário utilizar políticas que induzam ao crescimento da demanda efetiva. Para isso, o Estado deve ser intervencionista fixando juros baixos e aumentando os gastos públicos e os empréstimos ao setor privado.

O período de auge do pensamento keynesiano, centrando atenção ao lado da demanda, em detrimento do lado da oferta, vai de 1936 até o início dos anos 1970’s, quando as economias capitalistas desenvolvidas enfrentaram problemas de inflação e estagnação econômica provocada, em larga medida, pelos choques do petróleo de 1973 e 1979. A partir desse período, verifica-se uma ascensão das idéias neoliberais e uma retração das idéias intervencionistas, em que o papel do Estado na economia é cada vez mais questionado, num momento em que a recessão provocava aumentos significativos no déficit público e na dívida pública nas economias desenvolvidas. O aprofundamento da assim chamada “globalização” surge no bojo dessa mudança de paradigma teórico a partir dos anos 1970’s.

A “Era de Ouro do Capitalismo” – período 1945-1973 - foi de grande prosperidade econômica para as principais nações capitalistas. Vários são os fatores que, eventualmente, contribuíram para essa prosperidade:

• O emprego de políticas macroeconômicas keynesianas, estimulando a demanda agregada e reduzindo as flutuações econômicas de curto prazo;

• A adoção de políticas públicas de apoio aos desempregados, idosos, doentes, etc., que caracterizam o Welfare State (Estado de Bem-Estar Social), gerando acesso a renda por parte de parcela importante da população carente, notadamente na Europa Ocidental;

• A reconstrução das economias européias (o Plano Marshall) e japonesa no período pós II Guerra Mundial;

• A criação do conjunto de instituições de Bretton Woods (Sistema Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional), permitindo o aumento do comércio internacional a partir da adoção de taxas de câmbio fixas. O Banco Mundial, criado em 1944, resultou do acordo de Bretton Woods e tem tido, como uma de suas principais características, a função de ofertar capitais de longo prazo, particularmente no financiamento de projetos de desenvolvimento econômico (infraestrutura, educação, saúde, saneamento, meio-ambiente, etc.);

• A criação de organismos multilaterais para dirimir conflitos no comércio internacional, evitando políticas retaliatórias de defesa comercial que pudessem dificultar esse comércio (GATT – General Agreement on Trade and Tecnology, que se transformaria na OMC - Organização Mundial do Comércio);

• Os sucessivos desenvolvimentos tecnológicos, permitindo o desenvolvimento dos bens de consumo de massa e dos produtos eletrônicos, fatores que caracterizaram a “sociedade de consumo” desse período;

• A devolução dos empréstimos compulsórios contraídos pelo governo norte-americano para financiar o esforço bélico durante a II Guerra Mundial, provocando um efeito-riqueza na população e estimulando fortemente a demanda efetiva;

• O intenso processo de industrialização das chamadas economias periféricas da América latina e Ásia, com a consequente demanda de insumos, matérias-primas, máquinas e equipamentos, produzidos nos países capitalistas avançados, notadamente nos Estados Unidos.

A revolução keynesiana deu origem a todo um conjunto de modelos de crescimento econômico e flutuação cíclica centrado na interação entre dois mecanismos: o multiplicador e o acelerador. O primeiro descreve o efeito do investimento autônomo sobre a expansão da demanda agregada; o segundo, o efeito induzido pela expansão da demanda agregada sobre a propensão a investir.

Uma “Entrevista” Com John Maynard Keynes

P – Professor Keynes, o senhor chamou à teoria desenvolvida em seu principal trabalho de “Teoria Geral”. Ela se chama “Geral” por quê?

R – “Pretendo destacar a palavra “geral” com o intuito de fazer ressaltar o contraste entre os meus argumentos e conclusões e os da teoria clássica em que me formei, e que governa o pensamento econômico, tanto prático como teórico, dos meios acadêmicos e dirigentes desta geração, tal como os dominou no curso dos últimos cem anos”.

P – E qual é seu objetivo com isso?

R – “Demonstrarei que os postulados da teoria clássica se aplicam apenas a um caso especial e não ao caso geral, pois a situação que ela supõe se acha no limite das situações de equilíbrio possíveis. Além disso, as características desse caso especial não são as da sociedade econômica em que realmente vivemos, de modo que os ensinamentos daquela teoria resultariam ilusórios e nefastos se tentássemos aplicar as suas conclusões aos fatos da experiência”.

P – Professor Keynes, de acordo com os preceitos da teoria econômica clássica, o liberalismo econômico permite às economias capitalistas viverem, salvo reajustes de curto prazo, numa situação de equilíbrio. O senhor concorda com essa visão?

R – “Na minha opinião, o celebrado otimismo da teoria econômica tradicional, que é o causador dos economistas serem olhados como Cândidos, os quais, tendo-se retirado do mundo para cultivarem seus jardins, clamam que tudo caminha do melhor modo no melhor dos mundos possíveis, contanto que deixemos as coisas andarem sozinhas, tem como origem o fato de não haver sido levado em conta o estorvo que uma insuficiência da demanda efetiva pode significar para a prosperidade. Numa sociedade funcionando de acordo com os postulados clássicos deveria existir uma tendência natural para o emprego ótimo dos recursos produtivos. Pode muito bem ser que a teoria clássica represente o caminho que a nossa economia deveria seguir. Mas supor que na realidade ela assim se comporta é supor todas as dificuldades resolvidas”.

P – O senhor falou em demanda efetiva. Poderia defini-la para nós?

R – “A demanda efetiva é simplesmente a renda global (ou produto) que os empresários esperam receber, incluídas as rendas que fazem passar às mãos dos outros fatores da produção por meio do volume de emprego que resolvem conceder. A função de demanda global relaciona diversas quantidades hipotéticas de emprego com os rendimentos que se espera obter do volume de produção correspondente; e a demanda efetiva do valor de função da demanda global que se torna realidade porque, levando em conta as condições da oferta, ela corresponde ao nível de emprego que eleva ao máximo as perspectivas de lucro do empresário”.

P – O senhor tem afirmado que o objetivo final de sua análise é descobrir o que determina o volume de emprego. Nesse sentido, o senhor desenvolve o conceito de propensão marginal a consumir que a seu ver tem importantes efeitos sobre o nível de demanda global e, portanto, sobre o nível de emprego. O que vem a ser a propensão marginal a consumir e qual é a sua relação com o princípio do multiplicador?

R – “Em dadas circunstâncias, é possível estabelecer uma relação definida, que chamaremos Multiplicador, entre a renda e o investimento, e, sujeita a algumas simplificações, entre o emprego total e o emprego diretamente ligado ao investimento (a que chamamos emprego primário). Este novo passo constitui parte integrante da nossa teoria do emprego, visto que, dada a propensão a consumir, estabelece uma relação precisa entre o fluxo de investimento e os volumes globais do emprego e da renda (...). Todavia, antes de chegar ao multiplicador convém introduzir o conceito de propensão marginal a consumir (...). A nossa lei psicológica normal de que, no caso de variações da renda real da comunidade, o consumo varia, mas não tão depressa, pode portanto traduzir-se (...) pelas proposições de que a variação no consumo e a variação na renda têm o mesmo signo, mas a variação na renda é maior do que a variação no consumo. Definamos, portanto, a variação no consumo dada uma variação na renda como a propensão marginal a consumir. Esta quantidade é de considerável importância, por nos dizer como se dividirá o próximo incremento da produção entre o consumo e o investimento. Porque a variação na renda é igual à variação no consumo mais a variação no investimento, podemos escrever que a variação na renda é igual a uma constante (k) vezes a variação no investimento. Chamamos a k o multiplicador do investimento. Ele nos indica que, quando se produz um acréscimo no investimento total, a renda sobe num montante igual a k vezes o acréscimo do investimento”.

P – O senhor tem defendido os gastos do governo como uma forma de levar as economias ao pleno emprego, porque, a seu ver, estes gastos têm um efeito multiplicador sobre a demanda agregada e assim sobre o nível de emprego. Como isso é possível?

R – “Quando a atitude psicológica da comunidade a respeito do consumo incita, por exemplo, a consumir nove décimos de um acréscimo de renda, o multiplicador k é igual a 10, e o emprego total causado (por exemplo) por um incremento de obras públicas, será dez vezes superior ao emprego primário proporcionado por estas, supondo que não haja redução de investimento noutros setores”.

P – Mas professor Keynes, a busca de pleno emprego com o aumento dos gastos do governo não causa inflação?

R – “Quando o pleno emprego é alcançado, se se procura aumentar ainda mais o investimento os preços tendem a subir sem limite, seja qual for a propensão marginal a consumir, isto é, chega-se a um estado de verdadeira inflação. Até aí, no entanto, a alta dos preços irá acompanhada de um aumento da renda global”.

P – Em sua análise dos fatores determinantes do investimento, o senhor dá grande importância à eficiência marginal do capital e à taxa de juros que, a seu ver, é a recompensa da renúncia à liquidez. O que vem a ser essa eficiência marginal do capital?

R – “A relação entre a renda provável de um bem e seu preço de oferta ou custo de reposição, isto é, a relação entre a renda provável e o custo de produção de uma unidade suplementar desse capital, dá-nos a eficiência marginal do capital desse tipo. Mais precisamente, definiremos a eficiência marginal do capital como sendo a taxa de desconto que, aplicada à série de anuidades constituída pelas rendas prováveis desse capital durante toda a sua existência, tornaria o valor presente dessas anuidades igual ao preço de oferta do capital. Isto nos dá as eficiências marginais dos diferentes tipos de capital. A mais alta destas eficiências marginais pode ser considerada como a eficiência marginal do capital em geral (...). Torna-se desde então evidente que a taxa real de investimento corrente tende a aumentar até que não haja mais nenhuma categoria de capital cuja eficiência marginal exceda a taxa de juros corrente. Por outras palavras, a taxa de investimento se moverá até ao ponto da escala de procura de investimento em que a eficiência marginal do capital em geral seja igual à taxa de juros do mercado”.

P – Professor Keynes, os meios acadêmicos e empresariais têm enfatizado que a alta nas taxas de juros está levando o país ao desestímulo ao investimento e, portanto, à crise econômica. O que o senhor pensa a respeito?

R – “Ora, em nossas explicações do fenômeno da “crise”, temo-nos acostumado a insistir no fato de que a taxa de juros tende a subir sob o efeito de uma maior procura de dinheiro, tanto para fins de transações como para fins especulativos. Sem dúvida, algumas vezes este fator pode certamente representar um papel de agravamento e talvez, ocasionalmente, de desencadeamento. Mas creio que a explicação mais normal e por vezes a essencial da crise, não é primariamente uma alta na taxa de juros, senão um repentino colapso da eficiência marginal do capital (...). O pessimismo e a incerteza a respeito do futuro que acompanham um colapso da eficiência marginal do capital, suscitam um forte aumento da preferência pela liquidez – e, portanto, uma alta da taxa de juros. O fato de que a queda da eficiência marginal do capital ser frequentemente acompanhada por uma alta da taxa de juros, pode agravar de modo muito mais sério o declínio do investimento. Mas o essencial de tal estado de coisas reside, contudo, na queda da eficiência marginal do capital, sobretudo no caso das categorias de capital que, no curso da fase anterior, mais participaram dos grandes investimentos novos”.

P – Professor Keynes, por que o combate à inflação, além de ser um objetivo de política econômica, é também um objetivo de caráter social?

R – “Lênin, segundo se diz, declarou que a melhor maneira de destruir o sistema capitalista é desmoralizar a moeda. Por um contínuo processo de inflação, os governos podem confiscar, de modo secreto e despercebido, parte importante da riqueza de seus cidadãos. Com este método, eles não apenas confiscam, mas confiscam arbitrariamente; e, enquanto o processo empobrece a muitos, de fato enriquece a alguns”.

P – Então a existência de elevada inflação pode gerar conturbações sociais e políticas?

R – “Aqueles a quem o sistema traz ganhos extraordinários, além de seus merecimentos e mesmo além de suas expectativas e de seus desejos, tornam-se “especuladores”, objeto de ódio da burguesia – empobrecida pelo inflacionismo – assim como do ódio do proletariado”.

P – Então Lênin estava certo com sua proposição?

R – “Evidentemente Lênin estava correto. Não há meio mais sutil nem mais seguro de revirar a base da sociedade do que corromper a moeda. O processo imobiliza, para a destruição, todas as forças ocultas da lei econômica”.

P – mas professor Keynes, como os governos conseguem confiscar a riqueza dos cidadãos de modo despercebido e secreto?

R – “(...) os governos (...) muitos dos quais são neste momento tão imprudentes nos seus métodos quanto fracos, tentam desviar para a chamada classe dos “especuladores” a indignação popular contra as mais óbvias consequências de seus métodos”.

P – O senhor poderia nos dizer quem são esses “especuladores”?

R – “Esses “especuladores” falando em sentido amplo, são a classe empreendedora dos capitalistas, isto é, o elemento ativo e construtivo do conjunto da sociedade capitalista, os quais, num período de preços rapidamente ascendentes, não podem deixar de enriquecer, queiram ou não”.

P – De que forma isso ocorre?

R – “Se os preços crescem continuamente, todo negociante que formou estoques ou que tem propriedade ou fábrica inevitavelmente realiza lucros”.

P – E quais são as consequências desse processo?

R – “Dirigindo o ódio contra esta classe, portanto, os governos (...) estão levando a um passo adiante o processo fatal que a mente sutil de Lênin conscientemente concebeu. Os aproveitadores são uma conseqüência e não uma causa dos preços em alta. Combinando o ódio popular à classe dos empresários com o golpe já desferido na segurança social pela violenta e arbitrária perturbação do contrato e do equilíbrio estabelecido da riqueza – o que resulta inevitavelmente da inflação – esses governos rapidamente estão tornando impossível a continuação da ordem econômica e social (...)”.

P – professor Keynes, o senhor poderia explicar melhor as consequências sociais da inflação?

R – “(...) uma variação no valor do dinheiro, isto é, no nível de preços, só é importante para a sociedade na medida em que sua incidência seja desigual (...). Como sabemos, quando muda o valor da moeda, ele não muda igualmente para todas as pessoas e para todas as finalidades. Assim, uma alteração nos preços e nos ganhos, medida em dinheiro, geralmente afeta diferentes classes desigualmente, transfere riqueza de uma para outra, produz aqui a opulência e ali a necessidade, redistribui os favores da fortuna de tal forma que se frustra o desígnio e se desaponta a esperança”.

P – mas, se isso ocorre, o que determina a sua existência?

R – “Essa progressiva deterioração do valor da moeda, através da história não é um acidente, tendo atrás de si duas grandes forças motrizes – a impecuniosidade dos governos e a superior influência política da classe devedora”.

P – Isso quer dizer que sempre existiu?

R – “O poder da taxação pela depreciação da moeda tem sido inerente ao Estado desde que Roma o descobriu”.

P – Poderia explicar melhor?

R – “A criação de moeda tem sido e é um recurso final do governo, e não é provável que um Estado ou governo decrete a própria bancarrota ou a própria queda enquanto não tenha usado este instrumento. (...) Em alguma medida, sob a influência dos governos e a influência política da classe devedora , às vezes de uma e às vezes de outra, o progresso da inflação tem sido contínuo, se considerarmos longos períodos, desde que o dinheiro foi concebido no século VI a. C.”.

P – “Professor Keynes, o senhor poderia explicar como a inflação transfere renda para os capitalistas?

R – “Quando o valor da moeda diminui, é evidente que as pessoas comprometidas ao pagamento de somas anuais fixas, com base nos lucros dos negócios ativos, devem beneficiar-se, desde que suas despesas monetárias fixas representem uma proporção decrescente de seu giro de dinheiro (...). Então, quando os preços estão subindo, o negociante que toma dinheiro emprestado se torna capaz de pagar ao emprestador com algo que, em termos de valor real, não somente não representa qualquer juro mas, além disso, é até inferior ao capital originalmente adiantado”.

P – O senhor poderia nos explicar melhor porque isso não é bom para o capitalismo?

R – “Os lucros excepcionais do homem de negócios aparecem, ao consumidor, como a causa (e não como a consequência) da odiada elevação de preços. Em meio à rápida flutuação de suas fortunas, o próprio empresário perde seu instinto de conservação, passando a pensar mais nos grandes ganhos do momento do que nos menores, mas permanentes, lucros dos negócios normais. A prosperidade de sua empresa no futuro relativamente distante pesa menos do que antes, e os seus pensamentos são excitados pela fortuna rápida e pela ânsia de vender (...). Em seu coração, ele perde a antiga autoconfiança em relação à sociedade, à própria utilidade e à necessidade no esquema econômico (...). O empresário, propulsor da sociedade e construtor do futuro, a cujas atividades e recompensas se atribuíra não há muito tempo uma sanção quase religiosa, ele – o mais respeitável entre todos os homens e todas as classes, elogiável e necessário, sobre o qual a interferência era não apenas necessária mas ainda quase impiedosa – deveria agora receber olhares oblíquos, sentir-se suspeito e atacado, vítima de leis injustas e imperiosas para tornar-se e assim se reconhecer meio culpado, um aproveitador”.

P – E qual é a consequência disso?

R – “Nenhum homem de espírito consentirá em permanecer pobre, se acredita que seus chefes conquistaram seus bens jogando com a fortuna. Converter o empresário em especulador é golpear o capitalismo, porque isso destrói o equilíbrio psicológico que permite a perpetuação de recompensas desiguais (...). O empresário só é tolerável enquanto se pode aceitar que seus ganhos guardam alguma relação com aquilo que, grosseiramente em qualquer sentido, suas atividades trouxeram como contribuição para a sociedade”.

P – Professor Keynes, o que o senhor pensa a respeito da política de restrição de crédito para combater a inflação?

R – ”Quando o investimento caminha adiante da poupança, temos um grande aumento da atividade, emprego intenso e tendência à inflação. Quando o investimento ficar atrás, a atividade cai fortemente e aparece o desemprego anormal, como agora. Objeta-se a isso comumente que uma expansão de crédito necessariamente significa inflação. Mas nem toda criação de crédito quer dizer inflação. Esta resulta somente quando tentamos, como na guerra e logo depois, continuar expandindo as atividades depois que todos estão empregados e nossas poupanças estão sendo integralmente utilizadas. A sugestão de que uma política de gastos de capital, se não desviar capitais de indústria comum, significará inflação, seria bastante verdadeira se estivéssemos diante de condições de alta atividade (...). Evocar o demônio da inflação como uma objeção à despesa de capital, nestes tempos, é como advertir dos perigos da excessiva corpulência a um paciente que se está extinguindo de magreza”.

P – Professor Keynes, uma das causas apontadas como tendo efeito negativo sobre a economia é a elevada taxa de juros. Como esse problema pode ser resolvido?

R – “A taxa de juros pode cair por uma ou outra de duas razões opostas. Pode cair por causa de uma oferta abundante de poupanças, isto é, de dinheiro disponível para ser gasto em investimentos; ou pode cair por causa de uma oferta deficiente de investimentos, isto é, de objetivos desejáveis nos quais gastar as poupanças. Ora, uma queda da taxa de juros pela primeira razão é, obviamente, muito mais adequada ao interesse nacional. Uma queda pela segunda razão, no entanto, se se segue a uma deliberada restrição de oportunidades de investimento, é simplesmente um método desastroso de empobrecer-nos”.

P – Como assim, senhor Keynes?

R – “Um país se enriquece não pelo simples ato negativo de indivíduos não gastarem todos os seus rendimentos em consumo corrente. Enriquece-se pelo ato positivo de usar essas poupanças para aumentar o estoque de capital do país. (...) O objetivo de concitar o povo a poupar destina-se a criar a capacidade de construir casas, estradas e assim por diante. Portanto, uma política destinada a tentar reduzir a taxa de juros pela suspensão de novos acréscimos ao estoque de capital (...) é simplesmente suicida”.

P – O senhor tem criticado a política econômica do governo. Mas os resultados em termos de comércio exterior não são favoráveis?

R – “A futilidade de sua política e a falta de sadio pensamento por trás dela foi demonstrado, finalmente, pelo fracasso até mesmo em garantir uma queda na taxa de juros. Pois, (...) se as oportunidades de investimento doméstico cessarem, as poupanças vão para o exterior numa escala desproporcional a nosso saldo comercial favorável”.

P – Quer dizer que a situação econômica está mesmo difícil?

R – “Temos no fim, portanto, o pior dos mundos. O país está atrasado em termos de equipamento, ao invés de estar inteiramente atualizado. Os lucros empresariais são pobres, com o resultado de que suas receitas do imposto sobre a renda desapontam o ministro do Tesouro, que é incapaz tanto de aliviar o contribuinte quanto de levar adiante esquemas de reforma social. O desemprego é violento. Esta falta de prosperidade efetivamente diminui a taxa de poupança e assim derruba até mesmo o objetivo original de uma taxa de juros baixa. Então, as taxas se mostram, depois de tudo, altas”.

P – O senhor atribui essa situação à política econômica conservadora do governo?

R – “Não é um acidente que o Governo Conservador nos tenha jogado na confusão em que nos encontramos. É o resultado natural de sua filosofia:

“Não se deve pressionar por telefone ou eletricidade porque isso elevaria a taxa de juros”.

“Não se devem acelerar as obras rodoviárias e de habitação, pois isso esgotaria oportunidades de empregos de que podemos precisar em anos futuros”.

“Não se deve tentar empregar a todos, pois isto causará inflação”.

“Não prometeremos mais do que podemos realizar. Logo, nada prometeremos”.

Notas do Autor

[1] A Conferência de Paz de Paris iniciou-se em 18 de janeiro de 1919 e terminou em 20 de janeiro de 1920, contando com a presença de 70 delegados dos 27 países vitoriosos na I Guerra Mundial e resultou no Tratado de Versalhes assinado em 28 de junho de 1919, o qual definia os termos em que seria promovida a paz com as nações derrotadas: fixar um novo mapa político da Europa, as indenizações de guerra e as condições de desmilitarização dos países vencidos, de modo a diminuir o tamanho de suas forças militares.

O Brasil esteve representado por uma comitiva chefiada pelo futuro presidente Epitácio Pessoa e conseguiu incluir no acordo de paz a indenização de sacas de café apreendidas em portos alemães durante a Guerra e a venda dos navios alemães tomados durante a guerra.

[2] O Tratado de Versalhes, de 1919, foi um tratado de paz assinado pelas potências europeias que encerrou oficialmente a Primeira Guerra Mundial e determinava que a Alemanha assumisse todas as responsabilidades por provocar a guerra e que fizesse reparações a algumas nações da Tríplice Entente.

As condições impostas à Alemanha – extremamente duras - incluíam a perda de uma parte de seu território em favor de algumas nações vizinhas, de todas as colônias sobre os oceanos e na África, uma diminuição do tamanho de seu exército e uma indenização pelos prejuízos provocados pela guerra, além do reconhecimento da independência da Áustria. O tratado foi ratificado pela Liga das Nações em 10 de Janeiro de 1920. Na Alemanha o tratado provocou profunda indignação popular, o que certamente contribuiu para a queda do regime em 1933, a ascensão de Hitler e do Nazismo e o início da Segunda Guerra Mundial. Outras cláusulas incluíam a perda das colônias alemãs e dos territórios que o país tinha anexado ou invadido.

[3] As Conferências de Bretton Woods, ocorreram em Bretton Woods, New Hampshire, Estados Unidos, em julho de 1944, portanto, um ano antes do fim da Segunda Guerra Mundial, definindo o que se convencionou chamar de Sistema de Bretton Woods de administração econômica internacional, que fixou as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países mais industrializados do mundo. Tal sistema foi o primeiro exemplo bem sucedido, na história mundial, de uma ordem monetária totalmente negociada, com o objetivo de administrar as relações monetárias-financeiras entre Nações. Dos acordos de Bretton Woods resultou a criação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.

O Banco Mundial foi criado formalmente em 27 de dezembro de 1945, seguindo o estabelecido no ano anterior no Acordo de Bretton Woods, por 44 países. Atualmente, o Banco Mundial tem sede em Washington e é constituído por 184 países-membros.

O Banco Mundial é uma agência que faz parte do Sistema das Nações Unidas e é constituído por um grupo de 5 (cinco) instituições que abrange o BIRD – Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento, a AID – Associação Internacional de Desenvolvimento, a IFC – Corporação Financeira Internacional, a AMGI – Agência Multilateral de Garantia de Investimentos e o CIADI – Centro Internacional para Arbitragem de Disputas Sobre Investimentos.

O FMI – Fundo Monetário Internacional, criado em 27 de dezembro de 1945, conjuntamente com o Banco Mundial, seguindo o estabelecido no Acordo de Bretton Woods, em 1944, tem sede em Washington, Estados Unidos, sendo constituído, atualmente, por 185 países. Ideologicamente, o FMI defende o livre mercado e a eliminação das barreiras cambiais.

O objetivo primordial do FMI é buscar a estabilidade do sistema monetário-financeiro internacional, promovendo o equilíbrio nos balanços de pagamentos e nos sistemas cambiais internacionais e, dessa forma, favorecendo a expansão sustentada do comércio e dos fluxos financeiros mundiais. Todavia, atualmente, o FMI busca ampliar seus objetivos, incluindo o combate à pobreza mundial como uma de suas metas.

O FMI também patrocina programas de ajustes estruturais e de balanço de pagamentos, bem como presta assistência técnica e treinamento em diversas áreas aos diversos países-membros.

Tradicionalmente, o Banco Mundial é presidido por um norte-americano, da mesma forma que o FMI é presidido por um europeu.


P.S. No próximo trabalho apresentaremos "Uma "Entrevista" Com Milton Friedman".

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